Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Livrarias e cidades



António Pinto Ribeiro respondendo à pergunta

 

"Qual é a melhor maneira de entrar numa cidade? As livrarias que aparecem no fim?",

 

da jornalista Lucinda Canelas, feita para a revista Ípsilon, em 15.12.2011:


As livrarias são um grande indicador da massa crítica que existe numa cidade. Se há filosofia e ensaio, se os autores são actuais... Mas aquilo que eu gosto é de andar pelo meio das pessoas. Gosto de estar num café, no metro. Há uma chave importante, fulcral - ter amigos nessa cidade, eles são importantíssimos para a encontrar.


Na mesma entrevista, ele já havia dito que:

Há um filósofo alemão, pensador e historiador chamado Aby Warburg, que enlouqueceu, que usava um método fantástico para construir a sua biblioteca - dizia que cada livro chama um livro novo para seu vizinho. O que acontece é que a sua biblioteca era ilegível para a maior parte das pessoas. Mas a correlação [entre os livros] existia. O que acontece comigo é isto: há problemas que chamam outros problemas, artes que chamam artes, livros que pedem outros livros. Como não sou dogmático, tenho-me deixado ir por esse tipo de atracção dos livros vizinhos.


E, ainda:

Em Portugal temos um problema muito concreto de países periféricos: não há um público intermédio porque não há uma classe média curiosa, com
 uma cultura geral interessante. E isto interfere na programação e nos públicos que para ela estão disponíveis. 


O panorama cultural de São Paulo, meu outro ponto de apoio para imaginar, eu não consigo resumir muito bem neste momento...

Livrarias não faltam, disso tenho a certeza, embora não saiba colocar as coisas em termos de proporção, isto é, embora não saiba dizer quantas livrarias há por habitante! E isso sem considerar as distâncias que um cidadão tem de percorrer, se mora na freguesia/bairro X ou Y para chegar a uma dessas livrarias! São Paulo tem muitos obstáculos.

Classe média não falta em São Paulo. Se ela anda mais interessante do que a portuguesa, não sei. Eu há tempos fiz parte dela, mas não me sentia exatamente feliz com isso... Aqui, sinto-me no entanto um autêntico peixe fora d’água. Sou definitivamente classe média, em termos de poder aquisitivo, mas nunca vi qualquer outro morador da cidade em que vivo a vibrar com a ideia da abertura de uma livraria entre nós. Isso soa um bocado estranho, podem ter a certeza. 

Leitura de textos não vinga por aqui. Já tentei por iniciativa minha, já estive presente a prestigiar a iniciativa de outros... Só lembranças! Guardei uma foto. De uma amiga a acompanhar a leitura de um poema escrito por nossa antiga professora de Yoga. Estávamos na mesma confeitaria onde aconteceu o único encontro do grupo de leitura de Doris Lessing, ideia minha e de umas amigas (as donas da confeitaria).

Resta viajar um pouco, o que não me desagrada de jeito algum! Guimarães, Porto (onde acontecem umas intervenções de rua muito engraçadas, da parte de uma apaixonada por Clarice Lispector, por exemplo). Lisboa já está mais longe...

Édouard Boubat

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

"Feels like maybe things will be all right"

Vou a Guimarães de 15 em 15 dias.

Para quem nunca esteve em Portugal, ou para quem não pretende consultar um mapa, eu explico brevemente.

Guimarães é uma cidade do Norte do país. É antiga, dizem que lá nasceu o 1º Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, em 1179. É  bonita, não é grande nem pequena (tinha 160.000 habitantes, segundo cálculos feitos em 2008), tem escolas de ensino superior e algumas boas instituições ligadas à cultura.

Vi no site da Câmara Municipal de Guimarães que a temperatura desta segunda-feira, 19 de dezembro de 2011, rondou os 4 graus Celsius. Nessa época do ano, a temperatura costuma cair de repente, mas deve ter andado perto disso quando saí de lá, por volta das 19h30 de anteontem.

Minha volta para casa depois de duas reuniões de trabalho não teve ciência, mas teve o seu ritual.

Entrei no carro, que deixo em segurança num parque/bolsão de estacionamento público a 2 minutos da escola, e liguei o aparelho de som assim que dei a partida.

Tenho um pen drive para inserir no aparelho, com umas 60 músicas. Quando preparei minha coletânea, dei preferências às músicas que não tenho em cd, às que lembro por causa de meia dúzia de palavras e às mais dançantes. Mas nada muito claro, nada intencional.

Considero que as músicas tornam-se parte da rotina, à medida que eu as ouço. Ouço e sinto como elas se encaixam no contexto. Elas, desse modo, me ajudam a fazer a digestão dos acontecimentos. Por isso eu as escolho sem pensar muito e deixo as ideias assentarem.

Por exemplo. Para sair de casa a caminho do trabalho, me habituei a deixar que a lista de músicas corra da 1ª em diante, porque providencialmente ficou em 1º lugar uma batida que me anima. São só 45 minutos de autoestrada/estrada, no meu caso, mas a mudança de paisagem e de ares faz-se notar. Daí que eu goste de combustível para a travessia.

Pelo caminho, começo a sentir que o horizonte se alarga, concreta e metaforicamente. Amarante está num vale, com suas subidas e descidas, o caminho até Guimarães tem mais largueza; em Amarante estou dentro de casa, em Guimarães vou entrar em ação. A ação do dia a dia da casa é mais previsível. E eu já não sei se lido bem com a regularidade... 

Enfim, começo o caminho entre Amarante e Guimarães com "Scenario", de um grupo norte-americano chamado A Tribe Called Quest:



Parece que foi há pouco tempo, mas eu tinha 17 quando escutei a música pela 1ª vez. Já vivi o dobro desse tempo e mais um pouco...

Eu assistia MTV depois de vir da escola. Naquele ano também fui apresentada a um VJ, o Paulo, amigo dum amigo, e ele não acreditou que eu ouvisse aquele tipo de música... enquanto estudava. Tínhamos falado no Jimi Hendrix, também, pois eu havia ganhado uma cassete de um outro amigo. E eu ouvia, sim, não sei por que, mas ouvia enquanto estudava Biologia.

Quando era noite, eu ouvia aquelas músicas todas (do Tribe Called Quest, do The De La Soul, do Jimi Hendrix), e me perguntava se era mesmo tão difícil ter um grupo, ter uma aspiração de grupo, ter um raio dum programa à noite em São Paulo. Eu inclusive já sabia que vivia numa cidade perigosa, mas era adolescente e não tinha assim tanto receio de assalto.

Porque não estudei numa escola em que eu tivesse um grupo que saía à noite, que viajava, que se permitia ouvir qualquer música ou comentário pouco intelectualizado, ou melhor, que não fosse sofisticado. Gosto de sofisticação e gosto de excentricidade, mas não é uma marca, não é um imperativo. Já percebi que a liberdade de gostar vale o que vale, o sofisticado vale o que vale, o popular vale o que vale etc. Tudo tem sua hora.

Eu não acompanhava um grupo. Geralmente, até os 18, ou estava em casa ou saía à noite com pessoas que não estudavam na mesma escola que eu. Fui a umas festas da escola, a uma ou outra viagem, ganhei cassetes com Gershwin, com Marisa Monte, com Gilberto Gil, com Jorge Benjor, com o Premê! Ótimas todas... de "Refazenda" a "Umbabarauma", passando pela "Marcha da Kombi".

Mas nunca convidei qualquer um daqueles colegas-autores-de-cassetes para ver o Paulinho da Viola comigo, para dançar Ce Ce Peniston comigo, para falar dos Carpenters... Aos concertos/shows do Paulinho eu ia muitas vezes. Ia quando ele se apresentava nos parques, nas praças, nas casas de espetáculo. Tenho até fotografia com ele! Fui desde os 14 anos... E nunca, nem uma palavra sobre ele eu disse aos meus colegas de escola.

Eu sambava. Isso os colegas de classe viam. Um deles, aquele dos aniversários com bolo de damasco que reviveram em outro post,  batucava e para mim esse era um gesto perfeitamente encaixado, dentro do contexto... A paga para a minha simplicidade.

Pois na minha escola, se havia festa durante o horário escolar, um tocava "Summertime" ao piano e cantava em alemão! Era bonito, era lindo mesmo. Mas a cidade era São Paulo, nós éramos adolescentes. Seria tão difícil assim dançar, simplesmente? Onde é que nós andávamos com a cabeça?

Bom, por causa do Facebook tenho falado um pouco com alguns desses colegas, mas não temos unanimidade quanto ao perfil que nos trouxe até aqui!

Eu por cá encerro as lembranças com os Carpenters.

Tive discos de vinil da dupla e não deixei de gostar deles, tenho voltado de Guimarães a tentar cantar com a Karen.

Há músicas que me lembram tempos de algum isolamento e isso não chega a ser especial, é muito comum, aliás.

Estava eu a pensar na falta que um grupo de amigos faz, aos 18, já Karen Carpenter tinha falecido, aos 32, com anorexia e bulimia, mal compreendida pelo ex-marido.

Estou eu a lamentar a falta de pares em Amarante - como lamentava em São Paulo - e isso continua a ser vulgar. Há problemas mais graves, embora, por outro lado, existam características que nos acompanham por menos tempo.

No meu caso, acho que me vou acostumando a não dançar em público as músicas de que gosto. Será isso mesmo?

Vejo tantos ex-alunos no Facebook a postarem fotografias de saídas aparentemente divertidas e fico contente por eles. Preferia, no entanto, ver as tais fotografias, vibrar com elas, e ter mais do que o blog para compartilhar.

Os gestos importam, os passos importam, a expressão do rosto importa. Mas tenho uma ideia para a prática: espero a volta de uma amiga que, já sei, também gosta de dançar e de cantar, sem preconceitos, e vou propor que a gente experimente uns passos. Não sei por que, pensei em forró. Deve ser porque minha amiga já morou em Fortaleza. Deve ser Alceu Valença, que foi parar ao pen drive com duas músicas, "Coração bobo" e outra até mais conhecida, de que não sei o nome...

De volta aos Carpenters, a única música dos dois irmãos que eu coloquei no meu pen drive por enquanto foi "Only yesterday", pois sem dúvida eu acho que "Feels like maybe things will be all right":




After long enough of being alone 

Everyone must face their share of loneliness 
In my own time nobody knew 
The pain I was goin' through 
And waitin' was all my heart could do 

Hope was all I had until you came 
Maybe you can't see how much you mean to me 
You were the dawn breaking the night 
The promise of morning light 
Feeling the world surrounding me 
When I hold you 

(*) Baby, Baby 
Feels like maybe things will be all right 
Baby, Baby 
Your love's made me 
Free as a song singin' forever 

(**) Only yesterday when I was sad 
And I was lonely 
You showed me the way to leave 
The past and all its tears behind me 
Tomorrow may be even brighter than today 
Since I threw my sadness away 

Only Yesterday 

I have found my home here in your arms 
Nowhere else on earth I'd really rather be 
Life waits for us 
Share it with me 
The best is about to be 
So much is left for us to see 
When I hold you 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Cassius Clay 3

Antes do jogo de despedida de Pelé, promovido pelo Cosmos



Numa atitude brincalhona


No Zaire, em 1974, com fãs que ele ia à rua conhecer





Cassius Clay 2

Saltando em uma ponte de Chicago, em 1966




A cumplicidade com o jornalista Howard Cosell, em 1972




Um passo à maneira dele, uma esquiva muito plástica, para sair do golpe de Frazier

Cassius Clay 1

Outra forma de entrega: desporto/esporte vivido, sentido com humor

Também por isso, Cassius Clay ou Muhammad Ali 


Em 3 momentos de provocação sadia:

diante do anúncio de um de seus combates



Com os Beatles...


Interrompido ou impedido pelo seu próprio preparador, Angelo Dundee

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A televisão, os concursos, os erros da produção e... a generosidade da entrega




O link é muito extenso, mas está correto, corresponde ao que eu pretendo comentar, sim. Hoje mesmo assisti ao vídeo a que ele remete e que, pelo menos no meu computador, andava sempre aos trancos, com interrupções durante a transmissão.

Esse vídeo chamou minha atenção porque o destaque que ele recebeu no UOL trazia a promessa de mostrar problemas de pronúncia e de ortografia do programa de televisão "Caldeirão do Huck". Foi isso o que eu quis verificar com calma.

Muitos brasileiros conhecem o programa, porque faz anos ele está na grade de uma emissora bem qualificada em termos de imagem, de som, de edição. A qualidade nem sempre se confirma, no entanto, se está em discussão o conteúdo dos programas da emissora. A TV Globo tem boas e más produções, em termos de conteúdo. 

Pensando de maneira positiva, já considero razoável que isso aconteça, não me assusta que a TV Globo tenha padrões elevados no que diz respeito a umas coisas e baixe o padrão no que diz respeito a outras. Pois lembro que outras emissoras primam por programas muito ruins: algumas emissoras de televisão brasileiras têm mau jornalismo, sensacionalismo com direito a plateia no auditório da gravação, ensinam receitas culinárias lidas e comentadas por apresentadoras de péssima dicção etc. Quem acompanha a programação do período da tarde, sabe do que eu falo.

Tenho a certeza de que muito adolescente (e muito adulto também) discordará do caso que escolhi expor a seguir, porém o fato é que não consigo achar graça num programa como o "Pânico", por exemplo. Sinceramente, espero que o dia em que vou achar graça nesse programa nunca chegue! A produção do "Pânico" escolhe personalidades brasileiras das quais o telespectador deve debochar depois que ela debocha, proporciona perseguições de mau gosto a atores, a apresentadores e a outras figuras públicas, sem contar que essas práticas rebaixam seus próprios profissionais. Se estes se consideram uns sortudos por estarem naquele ambiente, e eu desconfio que sim, consideram-se, é pena. Eu não creio que aprendam a partir do trabalho que realizam, não creio que ensinem, não creio que o senso de humor, e neste ponto estou falando do objeto de trabalho deles, saia enriquecido ao final de um, de dois, de dez programas que vão ao ar. Até hoje não perdi muito tempo com o "Pânico"; para rir, dou preferência a quem me surpreenda e a quem faz paródia sem destruir o elemento parodiado, inclusive no registro pastelão, que eu adoro.  

Bom, ia começar a falar do "Caldeirão", entretanto. Perdi-me, com a intenção de demonstrar que podemos colocar os programas numa escala medidora do conteúdo. A avaliação que eu faço não dá uma nota assim tão baixa ao "Caldeirão" quanto dá a outros programas, e o "Pânico" faz a minha medição ir quase ao zero da escala!  

Não sendo um programa super interessante em termos de conteúdo como o é em termos de imagem e de som, o "Caldeirão" peca, no entanto, quando dá informações erradas.

Tem muita gente com a televisão ligada para assistir ao programa, não pode haver descuido com o uso da língua portuguesa. É disso que o vídeo apresentado por Maurício Stycer trata. 

Stycer usou seu espaço no portal UOL para mostrar o caso em que aparecia no ecrã/tela da televisão a palavra "acento", para designar o banco dos autocarros/ônibus. Essa gafe, conforme ele esclareceu, foi corrigida, ok. Não foi corrigida ao vivo, só no site do "Caldeirão". Soube da versão certa da palavra (que também existe com a grafia "acento", mas quer dizer outra coisa, serve para indicar aqueles sinais que sobrepomos às letras, para marcar o ponto em que a palavra tem pronúncia mais forte, tônica) apenas quem acessou o  site

Personagem do filme "Bee Season", de 2005


Houve também uma situação a meu ver mais curiosa, porque a participante do programa, uma adolescente, percebeu a incoerência que o apresentador Luciano Huck dava como certa e reclamou prontamente. O contexto era uma competição de Spelling Bee, mais comum nos Estados Unidos e na Inglaterra. Sem defender que passatempos e/ou preocupações que destoam da realidade brasileira tomem conta dos adolescentes brasileiros, penso que essas competições em que os participantes se esforçam para soletrar corretamente são engraçadas, pelo menos fazem uma pessoa se sentir bem por causa de um conhecimento adquirido.

É polêmica a obrigatoriedade de componentes educativos nos programas televisivos. Stycer se disse desfavorável a ela. Eu, que trabalhei com adolescentes, assumindo responsabilidade pela educação formal deles, defendo que os programas televisivos fariam bem se abraçassem essa ideia com criatividade

Educar com bom humor e descontração é possível. O professor não vai desejar que seus alunos se divirtam enquanto fazem as tarefas que exigem concentração. O apresentador provavelmente vai explorar a tensão do participante ou a atenção do telespectador nos momentos mais críticos das competições. Isso para afirmar que não há assim tanto risco de descambar para a bagunça, quando o importante é pôr os neurônios a funcionar sem um tom grave. Não convêm aos programas de televisão e também não é meta dos professores serem sisudos. 

Não sei por que o modelo "útil e com significado" não vinga... Será tão difícil como fazer uma boa comédia? Talvez. Será que esse tipo de modelo depende de paixão? O apresentador de televisão teria que ser um apaixonado pelo tema do programa, um apaixonado ao ponto de fazer rir e ao mesmo tempo acender a vontade de saber? O professor teria que conhecer seu tema com profundidade e com paixão, para oferecê-lo com encanto e sem tom chato?

Uma pista ou um paralelo talvez esteja no caminho do filme "Bee Season". Sugiro que vejam o trailer, pelo menos:


Há no filme uma menina que entra em campeonatos de Spelling Bee (Flora Cross); é a segunda filha de um professor universitário que vive certas facetas da vida pessoal e familiar com intensidade. Quem dá vida à personagem desse professor obcecado é nada mais nada menos que Richard Gere... A menina, interpretada por uma atriz muito bonita à altura das filmagens, canaliza um dom, uma mágica, uma mística que aplica aos concursos. 

Pensei no filme, quando vi o caso do concurso no "Caldeirão do Huck"; fiquei com a dúvida: algum tipo de entrega (emocional, intelectual, física) deve ser condição para o sucesso? Alguma entrega, que não pode ser do gênero "quero meus 5 minutos de fama", tem que existir nos programas de televisão?

A menina do filme entrega-se aos métodos de estudo do pai e deles consegue escapulir, ao perceber que a harmonia familiar merece esse sacrifício. É que a mãe (Juliette Binoche) e o irmão (Max Minghella) não cabem, tal como são, naquela dinâmica familiar de perfeccionismo e de brilhantismo. Têm segredos difíceis de defender em voz alta, diante de um pai de família muito rígido. O pai não permite que eles entrem no campo que ele cria para o desenvolvimento intelectual e espiritual da filha, na qual ele vê uma vencedora, uma potência.

Duras realidades familiares, frustrações, defeitos que não podem ser escondidos.

O que me intriga, no filme "Bee Season", é a transformação da menina. Ela aceita o desafio dos concursos de soletrar, ela participa neles, ela adere aos métodos preparatórios do pai e ela por fim compreende que está em jogo o direito de cada membro daquela família a ter visibilidade e a ser falível e, então, faz de conta que não é capaz de vencer os concursos!

Voltando aos programas de televisão, à educação e à graça com que uma pessoa pode tomar posse de um tema ou de um domínio, a minha conclusão: a entrega faz a diferença. A entrega foi o primeiro nome que eu encontrei, enquanto ia escrevendo, para falar de uma coisa que no fundo penso que se chama GENEROSIDADE.

Apresentar um programa de televisão quando se sabe o que se está a fazer, faz a diferença. O apresentador entrega-se ao público, à transmissão, ao tema.

Participar num concurso cujo tema é um tema caro ao participante, faz a diferença. Isso é dar o melhor de si, é ser generoso.

Ser capaz de tomar o partido da educação, em sala de aula ou na televisão, faz a diferença. É uma forma de generosidade em que eu acredito piamente! É querer que os outros, seus iguais, tenham direito a se preparar para a vida.

Pode ser que nada disso garanta o sucesso, mas faz ganhar consciência, dá sentido, corporifica conceitos, valores. 

Luciano Huck, que concluiu o curso de Direito e também o de Jornalismo na Universidade de São Paulo, tem que saber português! Tem que ser generoso com quem está estudando, com quem estudou menos do que ele, com quem não ocupa a posição que ele ocupa numa importante emissora de televisão, com que pode vir a gostar de somar conhecimento, nem que seja para competir no Spelling Bee/Soletrando do "Caldeirão do Huck".

Estarei delirando?

PS - um último ponto, num texto que mistura tanta coisa: por falar em personagens novinhas, crianças, que canalizam qualquer coisa de muito valor para a família, não passo sem lembrar a menina de "Little Miss Sunshine", de 2006. Quem ainda não viu a menina que entra num concurso aos cuidados do avô, tem que ver! Impagável... O papel da mãe da menina coube a Toni Collette, que fez antes disso "In her shoes", de 2005, e "Muriel's wedding", de 1994, dois filmes deliciosos. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

O impulso de se dar internamente ao seu propósito

Hoje comecei o raciocínio para o texto escrito, procurando imagens. Não me pareceu que pensar nelas fosse suficiente.



Desde há uns tempos, faço isso com gosto antes de escrever, pesquiso pinturas - e algumas delas vêm parar no blog, se o tema é a mulher -, fotografias, desenhos. Quero me rever, por isso procuro o pano de fundo e a pose de outras mulheres. Não existe o fake, certo? Há aquilo que uma pessoa se atreve a fazer, por ela e pelos outros.

Hoje, à medida que experimentava pesquisar e ver os resultados, sentia vontade de avançar um pouquinho mais, porque não tinha chegado à imagem que traduzia o anseio deste dia.

Vi o mar, um rio a transbordar, ruas cheias com a água da chuva, a flor de lótus, que mora na água, acompanhando o nível da subida. Vi gotas que escorriam pelo vidro, mas não fiquei convencida de que eu precisava de um clichê... 

Também vi mulheres mergulhadas. Uma boiava com o rosto de fora, rodeada de flores muito pequenas, com as pétalas redondas e de cores apagadas.

Vi jardins de caminhos desenhados, controlados pela poda, talvez. 

Fui olhando. E me perguntando como eu ia compor antes de encontrar uma chave.

Parei num caminho bem seco, por incrível que pareça! O meu traçado na busca contava com a palavra "transbordar", mas fui me achar no seco... ironias, ok, as ironias.

E para que a tentativa? A que ela se prende no post de hoje? A basicamente dois pontos: à ideia de que se transbordar, já estou no meu melhor caminho; ao que não se pode mexer como que com as mãos, porque está dentro de nós.

Daí eu lembro o título deste post, "O impulso de se dar internamente ao seu propósito". Dei com isso num outro blog, em que até deixei um comentário curto, para cumprimentar a autora. Gostei da frase. Fiquei com a impressão de que tinha sido tirada de um texto do Osho ou outro autor semelhante.

Detestei Osho quando ouvi falar dele pela primeira vez. Não tinha atravessado uma linha e já me defendia, dizendo para mim que ele devia ser muito persuasivo, astuto, sei lá.

Era um conhecido meu, amigo de uma das minhas irmãs, que me falava no Osho. E eu tinha receio de ficar, como aquele conhecido, muito perturbada com a constatação de que eu não me conhecia. Um homem tão bonito, tão penetrante, tão talentoso não se conhecia!?

Foi depois de ter mudado de mala e cuia para Portugal que me aproximei de Osho. 

(Já pareço o jornalista-escritor que, numa entrevista à emissora de televisão em que trabalha, e na qual veiculam mal disfarçada propaganda dos livros de ficção escritos por ele, sai com qualquer coisa desse naipe: "- Eu não tinha intenção de abordar Jesus nesse meu último romance". Socorro!?). 

Osho estava longe, sim, estava. Mas fui à Fnac e ele estava lá. Veio para casa comigo, obediente. E depois espreitei e vi que uma das papelarias da cidade em que vivo tinha Osho na montra/vitrine, e comprei. Trouxe-o pela mão, mais uma vez, não fosse ele fugir de mim...

Fui lendo, fui gostando. 

Fui também prevenida quanto ao fato (?) de que ele já fora considerado louco, no sentido clínico mesmo. Teria além disso criado uma espécie de seita nos Estados Unidos etc. Tudo conhecimento de segunda mão, no meu caso. O que eu sei dele porque li, está nos tais livros dele. E não fui me certificar da veracidade das outras informações.

Bom, comprei uns quatro livros do Osho. Adorei ler sobre intuição, por exemplo. Recomendo a leitura.

E li sobre o amor. Ele falava mais em liberdade, em jogos que não devemos jogar, nem mesmo se acharmos que jogamos em nome da conservação de um relacionamento (palavra que, na tradução pelo menos, ele condena). Pensei bastante no que ele explicava. E no tom de provocação que ele usa ou que a tradução empresta ao discurso dele.

Hoje, finalmente, enquanto buscava o excesso na forma de água a transbordar, veio o Osho na corrente, na maré alta.

Ou veio a lembrança dos textos dele, melhor dizendo.

O que quer dizer "O impulso de se dar internamente ao seu propósito"? Ainda considero uma frase hermética. Não é a frase, não é ela. É o movimento que ela sugere, ou a mansidão que ela sugere, o processo de se deixar capturar pela mansidão, a verdadeira mansidão, até que nossos projetos mais ambiciosos sejam concretizados, de dentro para fora.

Nunca pensei nisso, confesso. Os passos para os quais tive força ou fui impelida para eles por uma força realmente minha, necessária, acessa, ou eram passos pequenos... Parece-me, sem falsa modéstia, que mais serve a primeira explicação.

Mas e o "impulso", como entendê-lo?

É preciso preparar um pulo, antes de aguardar a boa vibração dar seus frutos e nos conduzir a realidades que merecemos, se nos comportarmos como merecedores?

É o tal "pulo do gato"? Senti-me ao mesmo tempo ridiculamente fora de moda e curiosamente divertida na primeira vez em que usei essa expressão em sala de aula, para dar um exemplo aos meus saudosos alunos da FB... não me lembro se riram, eu repeti a expressão faz poucos dias e voltei a rir sozinha; eu gosto do pulo do gato...

É um mergulho?

É a firme manutenção de um ritmo de bons pensamentos, de um ritmo de trabalho, de investimento nosso nos nossos melhores sonhos?

É não sabotar, quando tudo parece ir bem?

É não jogar contra o próprio desejo?

Seja como for, não o descubro agora, só posso sorrir como se aludisse ao pulo do gato, fazer a digestão (até porque estou em casa com meu menino a dormir e papei sozinha grandes fatias de um brigadeirão), me apossar do que já está digerido e... passar a bola a vocês.

Quem quiser ler comigo, seja Osho, seja o conteúdo de outros blogs, seja a salada que eu preparo no meu, post a post, sinta-se à vontade.

Deixo mais uma imagem, porque está marcada em mim, literalmente:





terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A literatura salva - Machado de Assis e Doris Lessing


E lá estava eu, em pé para uma explicação rápida, de saída mesmo, a falar em Machado de Assis. Esse homem sentado sobre a cabeça do meu texto de hoje.

De algum modo o percurso dele virou, para mim, uma ideia fixa.

Escrevi um artigo científico que ficou sem a devida apreciação dos membros do conselho editorial de uma revista.

Submeti esse texto à leitura de uns amigos mais próximos. Muito bem, surgiu a oportunidade de, com dois ou três, resumir tal percurso como eu o conheço. Digitei, falei em voz alta e só então cheguei a uma conclusão.

O percurso de Machado de Assis faz todo o sentido quando o leio hoje, porque ele se entendeu, a despeito das vozes que ou anunciavam entendê-lo (e podia ser uma mentira) ou o acusavam de ser um tipo que gagueja nas horas mais importantes.

Retorno à percepção da ironia. Está em outro post...

Se ele teve que se fazer - e isso está pressuposto em todo autodidata, por exemplo -, livrou-se de muitos ecos pelo caminho. Pôs de lado as máscaras com que se poderia esconder e disse muito, disse muito em cada história de ficção. Dialogou com os mortos, fez monólogo sobre os tipos menos generosos da época em que vivia, aprimorou um discurso pessoal de muita coragem. Atingiu um ponto a que eu gostaria imensamente de chegar.

Eu. Os outros. O outro em mim. Tem horas em que mais vale a ironia! Onde a nossa cabeça está quando essa constatação falha? Com que interlocutor estamos a conversar, para que só cheguemos a um pedaço do caminho até a ironia?

O senso de humor refinado, o transformar em pó as incoerências daqui e dali é o que se pode fazer, tantas vezes. É o que está à mão... Que outra transformação alguém pode desejar?

Quantas vidas tenho eu para andar a confiar mais nos julgamentos do que nas soluções?

Machado aprendeu com os gregos, com os ingleses, com os franceses, com os conterrâneos brasileiros.

Se a literatura ja tirou meus pés do chão, os dois ao mesmo tempo, dando uma visão distorcida de como se constroi um universo particular saudável, vamos me tirar disso, depressa. Com mais ou outro tipo de literatura. E sem achar que ela estraga, mesmo a mais fraquinha literatura.

Não é só mais Fitzgerald, mais García Marquez, mais Kafka, mais J.D. Salinger, mais Machado de Assis, mais Rushdie... Listei num terceiro post os textos que me ajudam a pôr os pingos nos is, como se costuma dizer, mas não esgoto o assunto nem o repertório.

Quero a aceitação febril que eu li em Doris Lessing, especialmente em algumas das suas mais femininas personagens, daquelas que consentem em abandonar um porto seguro (a ilusão do emprego perfeito ou o controle das paixões) para conhecer tarefas mais duras. Queria ser eu a estender-lhe a mão com um microfone depois da notícia do Nobel, sedenta de respostas, agitada por dentro com a digestão dos fragmentos de livro repassados, como uma criança repassa em casa a matéria antes da prova na escola.





Nunca me esqueci da impressão forte que a leitura de O diário de uma boa vizinha deixou em mim. Doris Lessing escrevia sob a proteção de um pseudônimo. E eu, com 12 anos, descobria que em outros países, numa realidade nada parecida com a brasileira, os idosos eram como fardo e como responsabilidade social do Estado, ao mesmo tempo. A "boa vizinha" (alcunha que popularmente davam às assistentes sociais naquele contexto do livro) - que não o era de profissão - pagou as contas na mercearia, carregou as compras, foi até à cozinha mal cheirosa depositá-las e ainda fez o chá à mulher idosa que tinha acabado de conhecer por obra do destino. Nunca antes se tinha incomodado, nunca antes se tinha permitido descer ao mundo dos sobreviventes. E depois daquele dia, no entanto... É pouco? É trivial nas sociedades ditas mais humanas, mais solidárias? Talvez, sim. E no entanto é como cruzar uma ponte. E no entanto... fica o desejo de outra mudança. Que a vida vai proporcionar, mas que a arte oferece de bandeja, restando ao leitor o trabalho de dar uns passos. O autor os deu, com criatividade, talento e labor.

Mais um post, enfim - como mais um brinde, se quisermos enxergar as coisas nessa metáfora -, para celebrar essa mágica da literatura, com dois nomes de peso que fizeram bem a mim como podem fazer a tantos outros leitores.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Uma heroína e um feitiço

Desde que assisto aos programas de televisão feitos para criança, não paro de encontrar coisas espantosas. Meu filho de um ano e dois meses se sacode e só se concentra em algumas cenas, como as mais retumbantes do "Little Krishna", por exemplo, provavelmente porque as cores mudam de repente, como acontece aos sons também. As imagens são lindas, de fato. Eu fico de olho pregado nelas, do mesmo jeito que ele, mas penso no que parecerão para ele e para outras crianças. Penso muito em como me surpreendem, esses desenhos animados. E decoro as músicas, ok! Para quem fica curioso, vai aqui a sugestão dos trailers dessa personagem infantil: 

Gostamos, meu filho e eu, do Gustavo (nome dado na versão portuguesa; no original, o desenho é "Gasp"), um peixe muito engraçado que zela pela menina da casa, a dona do aquário onde ele, às vezes, relaxa; do "Marco António" ("Mark Anthony"), um super herói mirim que envolve, além dos amigos, mãe e tia nas aventuras, porque gosta delas; do "Wubbzy", um bonequinho que pula muito e festeja com música e dança, no final de alguns episódios, acompanhado por exemplo da Daizy que diz: "Chupa-chupas de lavanda" ("Lavender lollipops", ou "Pirulitos de lavanda", se a Daizy estivesse no Brasil), no começo de todas as frases exclamativas. E eu gostei também da "Mystique Sonia", personagem dos "Hero 108"...

Vi há poucos dias, mas não acreditei quando ela chorou compulsivamente por causa de amor!!! 

Céus, as crianças de hoje vão aprendendo as coisas de um jeito que eu não conhecia e não supunha aparecerem assim nos desenhos animados...

Vão ficar mais doces? 
Vão ficar mais calmas, quando as demonstrações de afeto estiverem em baixa? 

Dá uma olhada na figura da "Mystique Sonia" e nas descrições que a acompanham em alguns sites:


Mystique Sonia is a tough, seasoned warrior in the cartoon superheros series Hero 108 and her classification is Hero 103. She can use her long tongue in battle to fight off enemies, using it like a whip and spinning it around to produce winds. Yaksha can also pull out a shard of ice which Mystique Sonia blows on it with her spinning tongue in order to produce strong and cold winds that freeze her opponents. She can also play the flute and likes flowers, decorations, and other pretty things.

She might be a tough cookie but she sure stays a girl. One moment she takes down Mighty Ray in a wrestling competition and the next she decides to redecorate the First Squad Briefing Room. Sonia has a soft spot in her heart for animals and is very fond of both Elephant and Panda Kings, as well as the Turtle Cannons. Sonia often feeds First Squad by growing magic buns. She has many different kinds of seeds that she throws on the ground. When Mystique Sonia spits on these seeds they instantly grow and provide various powers.

As a headdress she wears Yaksha. Because of a spell cast on Mystique Sonia, anyone who declares their love for her 3 times turns into a Yaksha. Yaksha is a purple and pink creature which rests upon Mystique Sonia's head like a hat. It is also an extremely flexible and stretchable being that can turn into various forms to aid Mystique Sonia like an accessory, a dress, and a trampoline. It can also extend its arms to propel Mystique Sonia forward.


Mystique Sonia is admired by many boy Heroes, especially by the soldiers in the Big Green Army. The Sailor Brothers have a terrible crush on her as well. But woe to the one who tells Mystique Sonia he loves her. Since she is cursed with a spell, anyone who tells her he loves her three times in a row turns into a Yaksha. This magical creature sits on her head like a hat and puts its life in danger to protect Sonia. Yaksha has the ability to stretch into a large protective cape or lengthen his legs like a spider. It is very jealous of Mystique Sonia's attentions, even though she often mistreats him.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Boas histórias, muitas fontes ou a literatura


Do que precisamos, afinal?

De boas histórias que nos ajudem a viver. As únicas verdades úteis são as que nos ajudam a viver. Num relacionamento, o que você precisa é criar uma história na qual se sinta vivo com a outra pessoa.

Hoje, temos mais opções para criar essa história?

Não sei. A cultura liberal oferece mais escolhas do que havia antes. Mas o capitalismo cria a ilusão de que temos muitas escolhas, quando na verdade temos muito poucas.
A única escolha é ser feliz ou não. É isso que está sendo vendido como o único programa: quanto prazer você pode ter, quão feliz pode ser. Só que felicidade pode ser como uma droga, nunca satisfaz, você quer sempre mais. Há coisas muito mais importantes que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza. 


O psicanalista britânico Adam Phillips, o homem que responde às duas perguntas que você pode ver aqui em cima, foi entrevistado por uma jornalista da Folha de S.Paulo, para falar sobre casais e fidelidade.

Li a entrevista do início ao fim por causa do tema, ok.

Mas, recortadas (como eu as coloquei no blog), as perguntas e as respostas me pareceram mais abrangentes desde o momento em que as li. 

As "boas histórias" que nos ajudam a viver vêm do casamento e não só. Vêm do trabalho, das amizades, da família, da vizinhança, da televisão, do cinema, da rua, da convivência com os animais, voltam até nós a partir de um passado que abandonamos etc. 

Como agarrá-las?

Acho que o não as poder agarrar tem que ver com o que Adam Phillips fala na última resposta... parecendo que há muitas portas e muitas janelas, não há porque será improvável sustentar a maior parte das boas histórias que se apresentam como tais.

Abra os olhos e veja boas histórias. Sinto o cheiro delas. Deixe o vento tocar o seu cabelo e os pelos do seu braço quando elas passarem por perto, sem mais. Ouça sem querer as boas histórias dos outros.

Depois, então? Então! Tudo o que é boa história terá que trazer até a sua vida muito muito prazer.

Não vale trazer ensinamento.

Não vale trazer experiência.

Não vale trazer conforto.

Porque vivemos como se nada disso enchesse barriga.

Não enche barriga, não enche o peito de ar, não enche a cabeça de sonhos, a não ser em casos raros.

Algumas pessoas devem pôr a cabeça no travesseiro para adormecer com bons presságios, apanhadas por boas histórias.

A grande maioria de nós, no entanto, parece que já considera qualquer pista uma chatice.

Na mesma página do Universo on line que trazia link para a entrevista que eu reproduzo num diminuto trecho, havia uma chamada para a seguinte descoberta: quando diz "obrigado" a uma pessoa, você cuida da sua saúde, pois agradecer, ser cordial, faz bem à saúde.

Começo a achar que eu tive mais naturalidade nesse campo, quer dizer, já fui muito doce, mas estou esquecendo. Digo "obrigado", "bom feriado", "esteja à vontade", mas nem sei se me ouço.

Daí a literatura, uma aliada antiga, uma segunda Betina, que traz de qualquer lugar realidades inteiras, ambiguidades que me fazem pensar, imagens que eu quero ver pela satisfação de imaginar.




Mais uma voz que soa a dinheiro, mas uma Sierva María de Todos los Angeles, mais um Gregor Samsa, mais um Holden Caulfield confuso e inteligente, mais uma dupla de antagonistas como a de "Pai contra mãe", mais uma menina com sapatinhos de rubi e seu cão, mais uma personagem de Virginia Woolf, mais um narrador imaginativo, mais uma paisagem que eu nunca tinha concebido, mais uma escritora do século XVII.

Aceito e tomo todas as doses. Já vou indo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Gabriela Mistral, a poeta chilena que recebeu um Nobel


La Oración de la Maestra

¡Señor! Tú que enseñaste, perdona que yo enseñe; que lleve el
nombre de maestra, que Tú llevaste por la Tierra.

Dame el amor único de mi escuela; que ni la quemadura de la
belleza sea capaz de robarle mi ternura de todos los instantes.

Maestro, hazme perdurable el fervor y pasajero el desencanto.
Arranca de mí este impuro deseo de justicia que aún me turba, la
mezquina insinuación de protesta que sube de mí cuando me hieren.
No me duela la incomprensión ni me entristezca el olvido de las que enseñe.

Dame el ser más madre que las madres, para poder amar y defender
como ellas lo que no es carne de mis carnes. Dame que alcance
a hacer de una de mis niñas mi verso perfecto y a dejarte en ella
clavada mi más penetrante melodía, para cuando mis labios no canten más.

Muéstrame posible tu Evangelio en mi tiempo, para que no renuncie
a la batalla de cada día y de cada hora por él.

Pon en mi escuela democrática el resplandor que se cernía sobre
tu corro de niños descalzos.

Hazme fuerte, aun en mi desvalimiento de mujer, y de mujer pobre;
hazme despreciadora de todo poder que no sea puro, de toda
presión que no sea la de tu voluntad ardiente sobre mi vida.
 

domingo, 27 de novembro de 2011

Rodolfo Amoedo (1857-1941)





A música do filme 50/50



Desculpa lá, gente!

Eu tinha dito que a trilha/banda sonora do filme 50/50 não apela para o drama, mas a música que ficou na minha lembrança emociona, sim... Lendo os comentários do YouTube, dá pra perceber que muita gente se comoveu na cena em que essa música entrou.

De qualquer maneira, eu também havia escrito que o filme faz rir e faz chorar. 

Com essa, eu chorei! Até molhar o lenço todo.

50/50

Há uma semana assisti ao filme 50/50 numa sala de cinema da cidade do Porto.

É uma produção deste ano, baseada na história verídica do roteirista/argumentista Will Reiser.



Gostei muito. Empatia conseguida.

O ator que teve a responsabilidade pelo papel principal (Joseph Gordon-Levitt) usa uma expressão que combina muito bem com (aquele que deve ser) o estado de ânimo do doente recém-informado sobre uma doença grave como o câncer/cancro. Sorri de espanto, recolhe-se e depois vai lentamente absorvendo a tristeza e o pânico que as pessoas mais chegadas sentem.

As etapas nas relações pessoais, no tratamento médico, nas expectativas mais íntimas, tudo vai surgindo a seu tempo no filme, enquanto o espectador chora e ri. Chora e ri mesmo.

Do que eu mais gostei?

Da trilha sonora que não se esforça por dar um tom de desânimo e de drama ao que vamos vendo na tela. Ainda vou ouvir as músicas de novo, para descobrir qual é esta que ecoa agora na minha cabeça.

Da terapeuta (Anna Kendrick), muito novinha e muito aberta, que convence. Os toques que ela dá no braço do paciente, para estabelecer um contato mais caloroso, são gozados. Ele ao princípio implica, mas acaba por reconhecer como tentativas válidas.

Da cena em que ele, o paciente, claramente inverte posições e corrige a terapeuta. Porque também ele age de maneira muito genuína quando diz o que o incomoda. E ela não o leva a mal. Aproveita a dica de limpeza, por assim dizer, e evolui na intimidade que é suposto estabelecer com o paciente.

Do melhor amigo, um tipo cujos "defeitos" qualquer um apontaria depressa, o que não o torna menos amigo e menos engraçado. E o ator tem uma voz, uma entonação e uma postura corportal divertidíssimas! O ator, a propósito, é Seth Rogen.

Da pose da mãe, atriz mais experiente (Anjelica Huston), que sensibiliza muito mediante as razões de mãe e, de novo, as expressões faciais. 

Do pai (Serge Houde), que não entende o que se passa e mesmo assim é levado a acompanhar o filho e a esposa.

Da casa do protagonista.... e da disponibilidade dele para sair de dentro dela às vezes, mesmo que estivesse sem força física sobrando.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Camila Henríquez Ureña (1894-1973). Alguém conhece esta senhora?


"LA MUJER INTELECTUAL Y EL PROBLEMA SEXUAL

Las mujeres que hemos escogido ser o nos ha escogido la suerte para compañeras intelectuales o iguales intelectuales de los hombres, nos quedamos, como clase, en una vida sexual incompleta. Somos en Grecia la hetaira, en la Edad Media la monja, la cortesana de la Edad Moderna, hoy en día la intelectual. Algo mutilado nos caracteriza (miro un cojo que atraviesa la calle apoyado en las muletas. En lugar de dos piernas tiene tres, pero no anda más aprisa, ni mejor, ha trocado una parte de su estructura biológica por una superestructura, pero esto no lo hace sentirse más feliz, porque no está completo en su ser natural) Nos caracteriza la infertilidad biológica: o no tenemos hijos o los tenemos un poco, mostrando como con esfuerzo, un deseo más o menos artificialmente cumplido, de manera que no es fruto de una madurez en pleno proceso natural, sino un consciente esfuerzo por cumplir. Cuando no una casualidad malhadada o una vergüenza que esconder, en ciertos casos. Pero mi pensamiento se mueve más allá de esta mutación biológica, a investigar si alcanzamos por eso mayor plenitud espiritual, o si en este aspecto también nos desnaturalizamos."


Nasceu na República Dominicana, viveu durante muitos anos em Cuba, e tinha uma visão do feminismo sui generis.

Li pela Internet um texto longo preparado em Cuba, por pesquisadores, com a finalidade de não permitir que se apagasse da memória das pessoas o trabalho dessa Professora. Estão lá os textos lidos nas conferências, as lições acerca da literatura hispanoamericana, as impressões sobre arte etc.

Tive conhecimento desse nome durante o exame de qualificação do meu Doutoramento e fiquei sinceramente satisfeita quando de verdade mergulhei nas ideias, nos projetos, nas comparações traçadas. Entre outras coisas, ela falou um pouco sobre o significado da paixão para as mulheres. Pensou em Santa Teresa, pensou na minha querida Mariana Alcoforado, pensou em Sor Juana Inés de la Cruz.

Depois de lê-la, escrevi o seguinte numa nota de rodapé da tese:

"Camila Henríquez UREÑA, leitora da obra de Sor Juana, já fez uma apreciação da condição feminina que interessa resgatar a propósito do desconforto que a novo-hispana pode ter sentido. Segundo ela, enquanto a mulher estiver mentalizada para a forma masculina de se afirmar em sociedade, pode ser que ela tenha muita dificuldade para encontrar a própria afirmação, quer dizer, pode ser que ela não reconheça o seu espaço de mobilidade, de intercâmbio, o seu repositório de energia vital. A partir do momento em que assumir o universo doméstico como referência central, de onde derivam as primeiras oportunidades de obter satisfação e sucesso, terá o trânsito facilitado, os pesos mais equilibrados na busca de afirmação e o próprio modelo traçado." Ainda tenho a mesma opinião acerca do valor do pensamento dela e acerca da satisfação que a mulher pode ter, mas às vezes repudia...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um achado de fim de noite

Ironia é autocrítica superada, segundo um crítico literário chamado Enylton de Sá Rego.

Ontem, enquanto estudava para finalizar um artigo sobre Machado de Assis, li a afirmação e quis rir. Estarão caindo as fichas, devagar? Há alguns anos não me identificaria com esse tipo de processo, com essa travessia do excesso de exigência para o reconhecimento pacífico que se adivinha no riso.

Portanto, li a explicação acerca do significado da ironia em Machado de Assis, querendo rir e ri. 

E neste momento me vem à cabeça mais uma vez Paulo Leminski, o poeta curitibano, que é para dar outra cor ao texto, com mais uma dose de ironia, além da machadiana, além da minha.
Sou quase forçada a transcrever o pensamento!
Digo eu que há uma graça perversa e também curiosa entre aquilo que se deseja e aquilo que se obtém. 
Dizia, por exemplo, Leminski: 

"Que tudo se foda
disse ela
e se fudeu toda"



Pois é... Isso de desejar tem o que se lhe diga. Uma pessoa pede e pode ser atendida, pode desencadear, pode ter que levar com uma reação.

E eu fiquei satisfeita ontem à noite, considerei-me pronta para dormir, depois de um dia mais cansativo do que os outros, justamente porque percebi que estou caminhando. Eu tenho pedido para ter pernas pra andar.

Para quem não riu à toa, durante uns tempos largos, eu finalmente estou caminhando. 
Todo mundo erra!
Acusaram Machado de escrever com ares de superior, depois de subir de classe social no Rio de Janeiro de outra época.
Leminski acusava os próprios erros, os erros do homem que foi. Não havia nos poemas um acontecimento deplorado, mas muitas vezes uma necessidade de rir quando um certo eu lírico pulava de cama em cama, bebia muito, cometia o mesmo erro etc.
Por que eu, então, estaria isenta?!

Passei muito tempo a crer que se fosse a menina que pedia aos colegas de classe, lá na quente Piracicaba, que se calassem para ouvir a professora, estaria livre do julgamento. Não estava, no fundo nunca estive. Até os colegas, pequeninos como eu - deixei a cidade aos 11 -, descobriam em mim uma Betina mais malandra, mais bacana, mais rebelde do que sisuda.

Enfim, se não me libertei por inteiro, depois de anos habituada à autocensura, vou soltando as asas... Devagar, devagar, lembro das piadas, repito-as, procuro encaixá-las no dia, não vá ele engolir-me antes que esse desejo de sorrir passe.



domingo, 20 de novembro de 2011

Cora Coralina




Antiguidades

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.

A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.

Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.

Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.

Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.

Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.

Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.

Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus !...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !

Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...

Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
"- Lili é a bengala de D. Benedita".
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.

D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.

O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.

D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.

Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.

De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.



Eu, que não vivi esse passado, sinto como se já tivesse pertencido a ele e a ele de novo voltasse, chegando a Portugal.
A casa é sagrada. 
Hábitos são coisas profundas.
Será preciso forjar um lugar no mundo, como quem já nasceu pronta.