Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Boas histórias, muitas fontes ou a literatura


Do que precisamos, afinal?

De boas histórias que nos ajudem a viver. As únicas verdades úteis são as que nos ajudam a viver. Num relacionamento, o que você precisa é criar uma história na qual se sinta vivo com a outra pessoa.

Hoje, temos mais opções para criar essa história?

Não sei. A cultura liberal oferece mais escolhas do que havia antes. Mas o capitalismo cria a ilusão de que temos muitas escolhas, quando na verdade temos muito poucas.
A única escolha é ser feliz ou não. É isso que está sendo vendido como o único programa: quanto prazer você pode ter, quão feliz pode ser. Só que felicidade pode ser como uma droga, nunca satisfaz, você quer sempre mais. Há coisas muito mais importantes que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza. 


O psicanalista britânico Adam Phillips, o homem que responde às duas perguntas que você pode ver aqui em cima, foi entrevistado por uma jornalista da Folha de S.Paulo, para falar sobre casais e fidelidade.

Li a entrevista do início ao fim por causa do tema, ok.

Mas, recortadas (como eu as coloquei no blog), as perguntas e as respostas me pareceram mais abrangentes desde o momento em que as li. 

As "boas histórias" que nos ajudam a viver vêm do casamento e não só. Vêm do trabalho, das amizades, da família, da vizinhança, da televisão, do cinema, da rua, da convivência com os animais, voltam até nós a partir de um passado que abandonamos etc. 

Como agarrá-las?

Acho que o não as poder agarrar tem que ver com o que Adam Phillips fala na última resposta... parecendo que há muitas portas e muitas janelas, não há porque será improvável sustentar a maior parte das boas histórias que se apresentam como tais.

Abra os olhos e veja boas histórias. Sinto o cheiro delas. Deixe o vento tocar o seu cabelo e os pelos do seu braço quando elas passarem por perto, sem mais. Ouça sem querer as boas histórias dos outros.

Depois, então? Então! Tudo o que é boa história terá que trazer até a sua vida muito muito prazer.

Não vale trazer ensinamento.

Não vale trazer experiência.

Não vale trazer conforto.

Porque vivemos como se nada disso enchesse barriga.

Não enche barriga, não enche o peito de ar, não enche a cabeça de sonhos, a não ser em casos raros.

Algumas pessoas devem pôr a cabeça no travesseiro para adormecer com bons presságios, apanhadas por boas histórias.

A grande maioria de nós, no entanto, parece que já considera qualquer pista uma chatice.

Na mesma página do Universo on line que trazia link para a entrevista que eu reproduzo num diminuto trecho, havia uma chamada para a seguinte descoberta: quando diz "obrigado" a uma pessoa, você cuida da sua saúde, pois agradecer, ser cordial, faz bem à saúde.

Começo a achar que eu tive mais naturalidade nesse campo, quer dizer, já fui muito doce, mas estou esquecendo. Digo "obrigado", "bom feriado", "esteja à vontade", mas nem sei se me ouço.

Daí a literatura, uma aliada antiga, uma segunda Betina, que traz de qualquer lugar realidades inteiras, ambiguidades que me fazem pensar, imagens que eu quero ver pela satisfação de imaginar.




Mais uma voz que soa a dinheiro, mas uma Sierva María de Todos los Angeles, mais um Gregor Samsa, mais um Holden Caulfield confuso e inteligente, mais uma dupla de antagonistas como a de "Pai contra mãe", mais uma menina com sapatinhos de rubi e seu cão, mais uma personagem de Virginia Woolf, mais um narrador imaginativo, mais uma paisagem que eu nunca tinha concebido, mais uma escritora do século XVII.

Aceito e tomo todas as doses. Já vou indo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Gabriela Mistral, a poeta chilena que recebeu um Nobel


La Oración de la Maestra

¡Señor! Tú que enseñaste, perdona que yo enseñe; que lleve el
nombre de maestra, que Tú llevaste por la Tierra.

Dame el amor único de mi escuela; que ni la quemadura de la
belleza sea capaz de robarle mi ternura de todos los instantes.

Maestro, hazme perdurable el fervor y pasajero el desencanto.
Arranca de mí este impuro deseo de justicia que aún me turba, la
mezquina insinuación de protesta que sube de mí cuando me hieren.
No me duela la incomprensión ni me entristezca el olvido de las que enseñe.

Dame el ser más madre que las madres, para poder amar y defender
como ellas lo que no es carne de mis carnes. Dame que alcance
a hacer de una de mis niñas mi verso perfecto y a dejarte en ella
clavada mi más penetrante melodía, para cuando mis labios no canten más.

Muéstrame posible tu Evangelio en mi tiempo, para que no renuncie
a la batalla de cada día y de cada hora por él.

Pon en mi escuela democrática el resplandor que se cernía sobre
tu corro de niños descalzos.

Hazme fuerte, aun en mi desvalimiento de mujer, y de mujer pobre;
hazme despreciadora de todo poder que no sea puro, de toda
presión que no sea la de tu voluntad ardiente sobre mi vida.
 

domingo, 27 de novembro de 2011

Rodolfo Amoedo (1857-1941)





A música do filme 50/50



Desculpa lá, gente!

Eu tinha dito que a trilha/banda sonora do filme 50/50 não apela para o drama, mas a música que ficou na minha lembrança emociona, sim... Lendo os comentários do YouTube, dá pra perceber que muita gente se comoveu na cena em que essa música entrou.

De qualquer maneira, eu também havia escrito que o filme faz rir e faz chorar. 

Com essa, eu chorei! Até molhar o lenço todo.

50/50

Há uma semana assisti ao filme 50/50 numa sala de cinema da cidade do Porto.

É uma produção deste ano, baseada na história verídica do roteirista/argumentista Will Reiser.



Gostei muito. Empatia conseguida.

O ator que teve a responsabilidade pelo papel principal (Joseph Gordon-Levitt) usa uma expressão que combina muito bem com (aquele que deve ser) o estado de ânimo do doente recém-informado sobre uma doença grave como o câncer/cancro. Sorri de espanto, recolhe-se e depois vai lentamente absorvendo a tristeza e o pânico que as pessoas mais chegadas sentem.

As etapas nas relações pessoais, no tratamento médico, nas expectativas mais íntimas, tudo vai surgindo a seu tempo no filme, enquanto o espectador chora e ri. Chora e ri mesmo.

Do que eu mais gostei?

Da trilha sonora que não se esforça por dar um tom de desânimo e de drama ao que vamos vendo na tela. Ainda vou ouvir as músicas de novo, para descobrir qual é esta que ecoa agora na minha cabeça.

Da terapeuta (Anna Kendrick), muito novinha e muito aberta, que convence. Os toques que ela dá no braço do paciente, para estabelecer um contato mais caloroso, são gozados. Ele ao princípio implica, mas acaba por reconhecer como tentativas válidas.

Da cena em que ele, o paciente, claramente inverte posições e corrige a terapeuta. Porque também ele age de maneira muito genuína quando diz o que o incomoda. E ela não o leva a mal. Aproveita a dica de limpeza, por assim dizer, e evolui na intimidade que é suposto estabelecer com o paciente.

Do melhor amigo, um tipo cujos "defeitos" qualquer um apontaria depressa, o que não o torna menos amigo e menos engraçado. E o ator tem uma voz, uma entonação e uma postura corportal divertidíssimas! O ator, a propósito, é Seth Rogen.

Da pose da mãe, atriz mais experiente (Anjelica Huston), que sensibiliza muito mediante as razões de mãe e, de novo, as expressões faciais. 

Do pai (Serge Houde), que não entende o que se passa e mesmo assim é levado a acompanhar o filho e a esposa.

Da casa do protagonista.... e da disponibilidade dele para sair de dentro dela às vezes, mesmo que estivesse sem força física sobrando.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Camila Henríquez Ureña (1894-1973). Alguém conhece esta senhora?


"LA MUJER INTELECTUAL Y EL PROBLEMA SEXUAL

Las mujeres que hemos escogido ser o nos ha escogido la suerte para compañeras intelectuales o iguales intelectuales de los hombres, nos quedamos, como clase, en una vida sexual incompleta. Somos en Grecia la hetaira, en la Edad Media la monja, la cortesana de la Edad Moderna, hoy en día la intelectual. Algo mutilado nos caracteriza (miro un cojo que atraviesa la calle apoyado en las muletas. En lugar de dos piernas tiene tres, pero no anda más aprisa, ni mejor, ha trocado una parte de su estructura biológica por una superestructura, pero esto no lo hace sentirse más feliz, porque no está completo en su ser natural) Nos caracteriza la infertilidad biológica: o no tenemos hijos o los tenemos un poco, mostrando como con esfuerzo, un deseo más o menos artificialmente cumplido, de manera que no es fruto de una madurez en pleno proceso natural, sino un consciente esfuerzo por cumplir. Cuando no una casualidad malhadada o una vergüenza que esconder, en ciertos casos. Pero mi pensamiento se mueve más allá de esta mutación biológica, a investigar si alcanzamos por eso mayor plenitud espiritual, o si en este aspecto también nos desnaturalizamos."


Nasceu na República Dominicana, viveu durante muitos anos em Cuba, e tinha uma visão do feminismo sui generis.

Li pela Internet um texto longo preparado em Cuba, por pesquisadores, com a finalidade de não permitir que se apagasse da memória das pessoas o trabalho dessa Professora. Estão lá os textos lidos nas conferências, as lições acerca da literatura hispanoamericana, as impressões sobre arte etc.

Tive conhecimento desse nome durante o exame de qualificação do meu Doutoramento e fiquei sinceramente satisfeita quando de verdade mergulhei nas ideias, nos projetos, nas comparações traçadas. Entre outras coisas, ela falou um pouco sobre o significado da paixão para as mulheres. Pensou em Santa Teresa, pensou na minha querida Mariana Alcoforado, pensou em Sor Juana Inés de la Cruz.

Depois de lê-la, escrevi o seguinte numa nota de rodapé da tese:

"Camila Henríquez UREÑA, leitora da obra de Sor Juana, já fez uma apreciação da condição feminina que interessa resgatar a propósito do desconforto que a novo-hispana pode ter sentido. Segundo ela, enquanto a mulher estiver mentalizada para a forma masculina de se afirmar em sociedade, pode ser que ela tenha muita dificuldade para encontrar a própria afirmação, quer dizer, pode ser que ela não reconheça o seu espaço de mobilidade, de intercâmbio, o seu repositório de energia vital. A partir do momento em que assumir o universo doméstico como referência central, de onde derivam as primeiras oportunidades de obter satisfação e sucesso, terá o trânsito facilitado, os pesos mais equilibrados na busca de afirmação e o próprio modelo traçado." Ainda tenho a mesma opinião acerca do valor do pensamento dela e acerca da satisfação que a mulher pode ter, mas às vezes repudia...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um achado de fim de noite

Ironia é autocrítica superada, segundo um crítico literário chamado Enylton de Sá Rego.

Ontem, enquanto estudava para finalizar um artigo sobre Machado de Assis, li a afirmação e quis rir. Estarão caindo as fichas, devagar? Há alguns anos não me identificaria com esse tipo de processo, com essa travessia do excesso de exigência para o reconhecimento pacífico que se adivinha no riso.

Portanto, li a explicação acerca do significado da ironia em Machado de Assis, querendo rir e ri. 

E neste momento me vem à cabeça mais uma vez Paulo Leminski, o poeta curitibano, que é para dar outra cor ao texto, com mais uma dose de ironia, além da machadiana, além da minha.
Sou quase forçada a transcrever o pensamento!
Digo eu que há uma graça perversa e também curiosa entre aquilo que se deseja e aquilo que se obtém. 
Dizia, por exemplo, Leminski: 

"Que tudo se foda
disse ela
e se fudeu toda"



Pois é... Isso de desejar tem o que se lhe diga. Uma pessoa pede e pode ser atendida, pode desencadear, pode ter que levar com uma reação.

E eu fiquei satisfeita ontem à noite, considerei-me pronta para dormir, depois de um dia mais cansativo do que os outros, justamente porque percebi que estou caminhando. Eu tenho pedido para ter pernas pra andar.

Para quem não riu à toa, durante uns tempos largos, eu finalmente estou caminhando. 
Todo mundo erra!
Acusaram Machado de escrever com ares de superior, depois de subir de classe social no Rio de Janeiro de outra época.
Leminski acusava os próprios erros, os erros do homem que foi. Não havia nos poemas um acontecimento deplorado, mas muitas vezes uma necessidade de rir quando um certo eu lírico pulava de cama em cama, bebia muito, cometia o mesmo erro etc.
Por que eu, então, estaria isenta?!

Passei muito tempo a crer que se fosse a menina que pedia aos colegas de classe, lá na quente Piracicaba, que se calassem para ouvir a professora, estaria livre do julgamento. Não estava, no fundo nunca estive. Até os colegas, pequeninos como eu - deixei a cidade aos 11 -, descobriam em mim uma Betina mais malandra, mais bacana, mais rebelde do que sisuda.

Enfim, se não me libertei por inteiro, depois de anos habituada à autocensura, vou soltando as asas... Devagar, devagar, lembro das piadas, repito-as, procuro encaixá-las no dia, não vá ele engolir-me antes que esse desejo de sorrir passe.



domingo, 20 de novembro de 2011

Cora Coralina




Antiguidades

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.

A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.

Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.

Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.

Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.

Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.

Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.

Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus !...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !

Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...

Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
"- Lili é a bengala de D. Benedita".
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.

D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.

O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.

D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.

Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.

De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.



Eu, que não vivi esse passado, sinto como se já tivesse pertencido a ele e a ele de novo voltasse, chegando a Portugal.
A casa é sagrada. 
Hábitos são coisas profundas.
Será preciso forjar um lugar no mundo, como quem já nasceu pronta.

sábado, 19 de novembro de 2011

"Nu feminino com tina de banho", Quirino Campofiorito



Pintura de 1932.
Os corpos mudaram, desde então.
Os quartos, também. Algumas pessoas, em Portugal, dizem "quarto de banho". Em geral, diz-se "casa de banho".
A tina? Não sei se alguém ainda utiliza. Por causa dos modismos orientais, no Brasil, conhecemos o ofurô.

Será que as mulheres gostavam mais de posar, outrora?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Como não fiquei fã de uma jornalista e sua ideia de amor


"Sermões impossíveis
Fernanda Câncio JORNALISTA
Há uma frase que mais tarde ou mais cedo surge naquelas conversas de amigos sobre uma relação qualquer que ou deu para o torto ou nunca deu para mais nada: «Ela/Ele gosta de ti à sua maneira.» Claro que a forma mais saudável de encarar este tipo de asserção é descontá-la como consolo mais ou menos simpático: quem o usa fá-lo para certificar ao outro que afinal até é «gostado», só que não do modo como desejaria ou, as mais das vezes, como toda a gente com bom senso e sensibilidade acha que se gosta «a sério». Sucede que, além de não servir para nada - para que raio quer alguém magoado ouvir que quem o magoa o faz por (deve ser essa a ideia) ter um defeito de fabrico na área das emoções e afectos? - há neste dizer um lado desculpabilizador e até de subliminar o encorajamento da vitimização que é sumamente insuportável.
Ao pressupor que existem maneiras de gostar de alguém que permitem - é geralmente disso que se trata - a indiferença, a distância emocional a até os maus tratos, afectivos ou outros, está-se não só a colocar quem protagoniza essas acções (ou inacções) num papel de «coitado» que não sabe/não pode fazer melhor como a projectar em quem as sofre uma obrigação de «compreender» e talvez mesmo de «suportar» - de perseverar, portanto. Além disso, desloca-se o fulcro da relação da prática para a teoria: em vez de valorizar o que realmente importa, o bem-estar que se retira ou não dela, o esforço que cada uma das pessoas faz para fazer o outro feliz, a tónica passa a ser o que «se sente» - lá no fundo, no fundinho. Ora para alguém que é infeliz com outra pessoa não é nem deve jamais ser propriamente relevante que essa pessoa não consiga fazer melhor que aquilo e, quiçá, até se sinta mal com isso. O ponto é que ninguém deve permanecer ou investir em relações com essas características, e é isso que os nossos amigos nos devem dizer. E se não conseguem fazê-lo, ao menos que se abstenham de repetir «mas ele/ela gosta de ti», como se isso lograsse algum milagre bíblico, do género de transformar pedras em pão.
As pessoas ficam juntas, ou seja, mantém aquilo que passa por ser «uma relação» por inúmeros motivos. Partir do princípio de que se alguém permanece com outra pessoa é porque gosta dela - «por que outro motivo seria?», pergunta-se muitas vezes - é uma tontice. Há relações que mais não são do que formas perversas de dominação e tortura (veja-se as que são conformadas pela descrição de «violência doméstica»), necessidade de uma aparência de «normalidade» ou, o que é mais comum talvez, hábito, conforto, reforço narcísico - o ter alguém, ali, à mão, que gosta de nós e nos trata bem, alguém que por isso mesmo se pode tratar mal. A medida do sentido de uma relação nunca deve ser, pois, o facto de existir (pelo menos como algo que está), sobretudo se só existe à custa do investimento emocional de uma das partes.~
A ver se a malta se entende: não é preciso tirar um curso, decorar aquelas frases feitas sobre as relações ou uma canção pop alusiva ao tema para se saber que se no encontro entre duas pessoas uma delas está em situação de ouvir que a outra «gosta dela à sua maneira», a relação está boa para deitar fora, e quanto mais depressa melhor. Ficar porque já se investiu/sofreu muito ou porque «se gosta» (geralmente as duas coisas misturadas e na verdade a querer dizer o mesmo, já que só se investe e sofre porque se gosta) significa apenas que se vai sofrer mais. E se na escola não se pode ensinar como fazer os outros felizes, se o exemplo dos pais nem sempre abona, ao menos cada um de nós, nas nossas relações com os outros, saiba fazer pedagogia do afecto como algo que se sente e se faz sentir, não como um valor que se amealha numa qualquer conta enquanto se vive a pão e água. Não há austeridade no amor. Ou há amor ou não há, e o amor dá-se, prodigaliza-se, não se guarda. Tudo o que for menos do que isso não presta. Xô."

Vou procurar seguir a mesma ordem que a jornalista da revista Notícias Magazine utilizou para o texto deste último final de semana, porque na minha cabeça o assunto de que ela trata é manhoso, no sentido português da palavra, isto é, é um assunto ardiloso. Relações amorosas são um rio ora cheio ora quase vazio, com mais peixes numa época do que em outra, com ou sem vegetação - exuberante vegetação ou relva rala -, protegido da poluição ou tomado por ela. Com duas margens e até com uma terceira.

Para começar, preciso dizer que não me sinto confortável ao ler uma frase do tipo "como toda a gente com bom senso e sensibilidade acha que se gosta 'a sério'". Posso refutá-la de várias maneiras: toda a gente com bom senso e sensibilidade acha igual? Gostar 'a sério' é, afinal, uma coisa apenas? Gostar a sério nos impede de viver outras formas de gostar? Quem conversa conosco acerca desses assuntos tem a coragem de nos encarar e perguntar se nós próprios sabemos o que é gostar 'a sério'? E nós, sabemos ou queremos saber, realmente, em todas as alturas da nossa vida, o que é gostar 'a sério'? Temos a obrigação de saber? Não há escalada nesses nossos processos internos? Não há escalada nos processos de escuta e de narração, quando estamos a partilhar com os amigos? Enfim, argumentos vão aparecendo, contra uma afirmação frágil.

Penso que a jornalista partiu de uma pressuposição perigosa. Porque se alguém julga que sabe definitivamente o que é gostar a sério, deixa simplesmente de ter motivos para estar em contacto com os diferentes, querendo receber mais do que dar. Em outras palavras, quero reforçar que, caso eu saiba melhor do que os meus amigos o que é gostar, deixo de me preocupar em excesso com o quanto ofereço comparado ao quanto ganho, e passo a oferecer sem medir com uma régua. Não conheço muita gente que aja assim, nem muita gente que entre numa conversa a dizer que sabe o que é gostar e que não se importa de dar, nem muita gente que na concretude da convivência faça por ser assim, sábia e praticante. É mais comum dizer e não fazer, não ter força e paciência pra fazer, julgar que faz como ninguém!

Entro, então, num outro ponto levantado pela jornalista Fernanda Câncio. A história do consolo e da vitimização em que ela vai com tudo.

Nas vezes em que um amigo fala, que eco a conversa gera? No momento em que eu, como interlocutora, me imagino a ouvir uma segunda voz que aponta para o puro consolo, não estou a ouvir bem, não estou a ouvir a voz do outro (mas ouço, sim, a minha voz rigorosa e provocadora), não estou com um amigo que me ouviu bem. Uma das hipóteses é válida. Quem é que afirma, sem titubear, que nunca ouviu sair de dentro da sua armadura uma voz que instiga a brigar e a projetar no outro o nosso algoz? Acontece nas melhores famílias. Nosso diálogo interno às vezes maça, às vezes vai além, desespera. A batalha, por isso, é contra agirmos motivadas por essa voz, que é nossa. E se encaramos o desafio de não tirarmos de cena o nosso lado adulto, o lado que nos pode ajudar a pôr de parte essa nossa voz, o que nos resta da personagem a que se pode chamar vítima? Quem dá luta não é vítima! Portanto, a longa lista que vai desde estar numa relação, partilhar com quem tem envergadura moral o nosso crescimento cotidiano como membro de um casal, ouvir o feedback e seguir em frente para crescer mais, evitando a armadilha das nossas ideias preconcebidas sobre o amor, vociferadas dentro de nós e entendidas como fala alheia, não é lista de uma vítima. Uma vítima tem um discurso viciado, previsível, choroso, que exclui suas próprias participações e aponta sempre para as maldades praticadas pelo outro, seja ele o(a) parceiro(a) ou o(a) amigo(a).

Fiz-me entender?

Com toda a sinceridade, não me lembro de ter ouvido uma pessoa do meu círculo a deixar nas entrelinhas a ideia de que está tudo bem quando falta amor, quando falta carinho, quando sobram antipatias, grosserias, boicotes, sabotagens. E há explicação simples para essa ausência nas minhas memórias: o que as pessoas querem é acolhimento, às vezes até o que dura pouco. Não resisto e, nessa vaga boa, trago um verso curto da canção deliciosa do Gonzaguinha, artista já falecido: "Tudo, amiga, é apenas carinho e atenção". É isso. Cabe no verso de uma canção. Estava no olhar do compositor, profundo para quem o quer assim. Muito curiosa eu ouvi, faz uns meses, o depoimento de uma atriz portuguesa que eu tomava por superficial. Alexandra Lencastre, uma mulher bonita e presente nas revistas de fofoca, comparou as paixões a um capricho, mais ou menos nos seguintes termos: o que diferencia um capricho de uma paixão? O capricho dura mais tempo. Voltando ao compositor, que mora na minha cabeça musical, há sentimentos sólidos como o tronco de uma árvore que vão definhando por causa da falta de carinho e só ele, sem a solidez que não se explica, resulta mas pode não vingar. Carinhos trocados, ternura,  tesão serão medida para o gostar 'a sério'? Eu não sei o que é gostar 'a sério', mas valorizo a dúvida, não aceito que digam por mim se está bem para a humanidade ou se é humilhante. Minha voz já atrapalha o suficiente.

Retomando sem recorrer aos artistas, lembro aqui que existem pessoas que, por não se quererem vitimizar, assumem aquilo que vivem numa relação como fruto do que constróem no dia a dia e, assim sendo, refletem, procuram estratégias ou permitem ao tempo que opere as suas mudanças. Umas derivam, erram, tropeçam, porque querem à força o que não lhes é dado, como se o outro tivesse a obrigação de fazer feliz quem está com ele. Discordo. Ninguém tem esse peso, pois o importante é compartilhar, aprender, para si e por si, para os outros e com os outros. Fazer feliz? As fadas fazem, na literatura... Ou faço eu, a mim e à família, a mim e aos vizinhos, a mim e aos desconhecidos. Nem ao cinema eu vou para que me façam feliz. E olha que sou eu a pagar o bilhete. Vou para rir um pouco ou para pensar ou para estar no escurinho com trilha sonora, sei lá. Fazer feliz é mais subjetivo. A minha antena capta felicidade e retransmite numa lógica que escapa até a mim.

Conheço uma senhora doce, alegre, cujo marido tentava muitas formas de humilhação dentro de casa. Ela chegava ao local de trabalho pesarosa, mas não se apoiava em lamentações. Buscava em outras fontes o que lhe serviria de bálsamo. Curava-se, voltava para casa refeita tanto quanto possível, com condições de nutrir a relação, lentamente, de uma qualidade que ao marido acabou por fazer a diferença. Ele compreendeu que era menos companheiro do que podia ser; um dia, deu uma resposta boa à resistência dela. Eu não a chamo vítima. Porque ela não se fez vítima nem aos meus olhos nem para ela mesma. Pode ser que dentro da cabeça dela também ecoasse aquela voz insistente, mas parece que ela driblava essa voz por ser carinhosa. Isso vale mais do que usar uma relação, boa ou má, para eximir-se da tarefa de viver a vida como ela se apresenta.

O que poderia ser diferente do que a jornalista apregoa?

Imagino que tenho mais um ano letivo com uma turma de 50 alunos, como costumava ser. Não sendo muito vulgares as turmas homogêneas, eu estava em pé diante de 50 pessoas de naturezas distintas. Umas mais aplicadas nos estudos, outras mais desatentas. Umas mais confortáveis nas cadeiras, outras mais irriquietas. Umas mais caladas, outras mais questionadoras. Umas mais atrasadas quanto aos deveres marcados, outras mais disciplinadas nas entregas dos mesmos deveres. Umas cujas famílias eu já tinha conhecido em outros anos, outras novas, incógnitas. Que fazer? Exigir rigorosamente o mesmo de cada um? Nunca mudar as palavras do meu discurso, para me fazer clara para uns e outros? Aceitar ou não sugestões? Mostrar ou não como eu quero que sejam as rotinas? O que eu defendo: a única coisa que contaria, nesse caso, é dar aulas, encarando o que viesse pela frente. Chegaria o momento de discutir o que estávamos fazendo na escola, o momento de marcar exames, de devolvê-los corrigidos, de justificá-los, de combinar passeios, de propor leituras, de voltar a falar das nossas responsabilidades, de chamar os pais, de rir, de querer fugir etc. Viver é isso. Vive-se em casa, ao lado do companheiro, vive-se na escola, vive-se no trabalho, vive-se dentro do carro, no trânsito, vive-se nas discotecas, nos cafés e padarias...

Na minha opinião, há respostas para quem as procura. Há momentos para procurá-las. E não há lição em que professor e aluno não aprendam um com o outro. Vive um amor quem acha que ama mais, vive quem acha que á amado demais. Só não há vida com amor para quem se retira, para quem acha que ouvir a respiração do outro e o que ela tem a dizer é mais relevante do que respirar e, então, descobrir-se no amor.

Ficar ofendida porque um amigo aconselhou mais aceitação da minha parte? Ficar com a sensação de que esse amigo me vê como vítima? Ficar com a pulga atrás da orelha porque não gostam de mim 'a sério'? Se eu só me perspectivo desse modo, eu me vejo muito mal! Isso sim é vitimização, embrulhada num papel mais bonitinho.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O que é amor, que se manifesta devagar, pelos fios de telefone e pelas bibliotecas


E pensar que houve um Padre, no séc. XVIII, em Espanha, que se dedicou a investigar o amor e a escrever sobre ele com tal propriedade que permitia discordar de filósofos antigos e começar sentenças por um singelo "Mi sentir es que estas voces nada significan". 

Esse homem foi Benito Jerónimo Feijoo. 

Estudei uma parte pequena do legado dele, quando estava atenta à história de Sor Juana Inés de la Cruz, religiosa do México. 

Voltei a ouvir falar dele em Amarante, há cerca de 15 dias, quando a Profª que orientou o meu trabalho no Mestrado veio à biblioteca da cidade para mostrar uma visão peculiar do poeta Teixeira de Pascoaes.

No salão à esquerda de quem entra naquele espaço público, havia mais ou menos umas 30 pessoas, eu creio, e poucas me conheciam. 

Uma delas, certa vez, chamou-me ingênua porque eu esperava ocupar um cargo público aqui, sem conhecer figura ilustre que me recomendasse.

Por isso e pela troca intelectual e afetiva que, graças a Deus, existe entre a Profª Maria Luísa Malato e eu, foi muito saboroso ouvir que parte do raciocínio que ela iria seguir para discursar sobre Teixeira de Pascoaes, na cidade de Teixeira de Pascoaes, tinha que ver com uma pergunta minha, feita há mais de um ano.

Faláramos a respeito do significado da palavra "energia" para o Pe. Benito Feijoo, já que ele a utilizara para criticar Sor Juana Inés de la Cruz.

Enfim, às vezes as coisas tardam, mas não falham!




44. Tres especies de amor distingo: Apetito puro, amor intelectual puro, y amor patético. El apetito puro, que con alguna impropiedad se llama amor, se termina a aquellos objetos, que deleitan los sentidos externos, como al manjar regalado, al olor suave, a la música dulce, al jardín ameno. Este amor se excita precisamente por la experiencia, que tiene el alma de la sensación grata, que le causan estos objetos. La alma naturalmente apetece, y se inclina al gozo de lo que la deleita: y así no es menester más requisito para excitar en ella ese amor, que la experimental representación de la sensación grata, que causa tal, o tal objeto.


45. El amor intelectual puro viene a ser el que los Teólogos Morales llaman apreciativo, a distinción del tierno. Demosle aquél nombre, porque es mero ejercicio del alma racional, independiente, y separado de toda conmoción en el cuerpo, o parte sensitiva. Este se excita por la mera representación de la bondad del objeto. El alma ama todo lo que se le representa bueno, sin ser necesaria otra cosa más que el conocimiento de la bondad. Así ama, aun separada del cuerpo: y el amor intelectual puro, de que hablamos, realmente en cuanto al ejercicio, es semejante al que tiene el alma separada.


46. El amor patético es el propio de nuestro asunto. Este es aquel afecto fervoroso, que hace sentir sus llamaradas en el corazón, que le inquieta, le agita, le comprime, le dilata, le enfurece, le humilla, le congoja, le alegra, le desmaya, le alienta, según los varios estados en que halla el amante, respecto del amado: y según los varios objetos, que mira, ya es divino, ya humano, ya celeste, ya terreno, [370] ya santo, ya perverso, ya torpe, ya puro, ya ángel, ya demonio. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Pela paz - e mais uma canção que eu não compreendo

"- Vocês que são do rock, aprendam a amar o Brasil".

Ao dizer isso (talvez quase isso) - já faz 10 anos e eu li mas não ouvi essa frase ser proferida -, Carlinhos Brown tentava convencer pessoas que atiravam garrafas contra ele a pararem de o fazer. Estavam numa das edições do "Rock in Rio". Ele era o primeiro músico a se apresentar naquele dia e, em seguida, era a vez do Guns N' Roses, por quem os da algazarra aguardavam.

Vejam só que ele insistiu, minutos depois da primeira tentativa: "- Podem jogar o que quiser, eu sou da paz e nada me atinge".

Pois é. Conversar, no Brasil, pode dar um prazer imenso porque há gente muito curiosa. Só que também pode levar à exaustão, se o público for de adolescentes sem parada ou de gente que se comporta como se estivesse na adolescência.

Não invento teoria, quando faço esse tipo de afirmação; fui professora em São Paulo durante 8 anos consecutivos. Errei muito, porque perdia as estribeiras com meus alunos de menos de 18 anos. Por outro lado, fiz o que  julgava ser da minha competência; não me sentiria à vontade se imitasse as estratégias de um colega. Trabalhei ao lado de professores práticos e respeitados, não me esqueço deles, mas em geral a minha ação a portas fechadas acontecia no intervalo entre um imprevisto e o merecido descanso, por isso imitar seria o mesmo que ir além da minha margem de segurança para aprender.

Por isso, Carlinhos Brown pode ter sido alvo de muitas piadas, depois do episódio que eu fui buscar, mas foi autêntico. Disse pacificamente o que pôde. Ele também é autêntico ao compor, não tenho dúvidas. Lembro de uma entrevista que deu ao Jô Soares. À época eu não achei muita graça à observação que ele fez; disse que ainda faria um curso de ponto e vírgula... Claro que ele estava a assumir o fato de ter pouco conhecimento formal de língua portuguesa. Hoje vejo outro lado da resposta com que ele se saiu. É uma forma pitoresca, castiça de confirmar a existência de uma lacuna que o público do Jô não costuma perdoar.


Vou contrariar, por fim, uma ideia que tenho ouvido mais vezes do que é suposto.
Essa mesma pessoa que manteve a calma e que falou em nome do Brasil, em nome do amor, tem fãs na Europa, fez concertos em países africanos, concorre ao Grammy Latino e nesse sentido representa o seu país. Representa muito mais do que quem bate no peito para dizer que defendia o artista brasileiro dos ataques (quem os viu?) de um artista gringo. Pensei no Roger, sim, do Ultraje a Rigor, sobre quem falei no post anterior a este. Se um corre o risco de parecer piegas, o outro corre o risco de parecer vazio. Mais consistente construir uma imagem com calma, falar em calma, agir com calma.

PS -  é desta mesma paz que fala O Rappa?


Minha Alma

a minha alma está armada

e apontada para a cara
do sossego
pois paz sem voz
não é paz é medo

às vezes eu falo com a vida
às vezes é ela quem diz
qual a paz que eu não quero
conservar
para tentar ser feliz

as grades do condomínio
são para trazer proteção
mas também trazem a dúvida
se não é você que está nessa prisão
me abrace e me dê um beijo
faça um filho comigo
mas não me deixe sentar
na poltrona no dia de domingo

procurando novas drogas de aluguel 
nesse vídeo coagido
pela paz que eu não quero seguir admitindo

às vezes eu falo com a vida
às vezes é ela quem diz
qual a paz que eu não quero
conservar
para tentar ser feliz

Calma


"Briga, chuva e muita festa: Ultraje a Rigor rouba a cena no SWU
13/11/2011 18h50 • Guilherme Guedes


A briga aconteceu entre integrantes das equipes de Peter Gabriel e do Ultraje a Rigor, segundo Roger, vocalista da banda brasileira. Eles discutiram porque o show do Ultraje atrasou em razão da chuva. 

"Muito obrigado ao nosso amigo Chris Cornell". A ironia de Roger Moreira, vocalista e guitarrista do Ultraje a Rigor, foi a faísca que faltava para disparar uma briga entre roadies e membros da produção do grupo paulista com integrantes da equipe do cantor Peter Gabriel. Ficou confuso? Pois é. O público do SWU Music & Arts Festival também.

Tudo começou com a chuva forte que cobriu Paulínia no meio da tarde, pouco antes da apresentação do Ultraje no Palco Consciência. Os ventos e a água atrasaram a montagem do palco, e o show do grupo precisou ser atrasado, antecipando a performance da Tedeschi Trucks Band, no Palco Energia.

A produção de Peter Gabriel, que veio ao Brasil acompanhado de uma orquestra, passou a pressionar o grupo brasileiro para encurtar o show e tentar compensar o atraso, que a essa altura beirava as duas horas. Com informações confusas, Roger expôs a confusão ao público, mas jogou a culpa em Cornell. A pancadaria no palco (que você vê na galeria acima) atiçou a plateia, que tomou partido do Ultraje a proporcionou um dos shows mais animados desta edição do festival.

Após a baderna, os refrãos de faixas como É Tudo Filha da P**a e Nada a Declarar ganharam outro significado, com palavrões berrados, todos direcionados injustamente ao vocalista doSoundgarden. Em determinado momento, Roger - ainda mais disposto a provocar "os gringos", deixou a guitarra de lado para simular um demorado strip-tease, seguido por mais uma provocação verbal: "Nós temos bastante tempo de palco, mesmo".

Ao fim de O Chiclete - cujo refrão "bum-bum-bundão" gerou coros de "Cornell, vai tomar no c*" - Roger não perdoou. Traduziu a frase e a direcionou mais uma vez ao ex-vocalista do Audioslave: "Asshole! Big asshole! Big, huge, asshole!".

Sob fortes aplausos, o quarteto encerrou a apresentação com o sucesso Nós Vamos Invadir Sua Praia. Depois do coro "mais um, mais um" da plateia, Roger e o baterista Bacalhau tentaram puxar Marilou, cortada no meio pela produção do evento.

Revoltado, Bacalhau emendou em um solo catársico de bateria, que terminou com as peças do instrumento espalhadas pelo palco, jogadas e chutadas pelo músico. O público adorou, e a banda também. Toda a equipe do Ultraje aplaudiu o público após o fim, em uma bonita - ainda que injusta - exaltação do rock nacional."


Nunca estive num show/concerto do grupo de rock Ultraje a Rigor, criado há cerca de 30 anos em São Paulo.

Gosto de várias músicas deles, e me lembro agora de "Eu me amo" e de "Terceiro", que tem uns versos engraçados:

Todo equipado, preparado na linha de partida
Daqui a pouco vai ser dada a saída
Todo mundo nervoso e eu não tó nem aí (O importante é competir!)
...

Se eu me esforço demais vou ficar cansado
Já dá pra enganar eu ficando suado
Se reclamarem eu boto a culpa no patrocinador


É meio cínica essa letra de música, quem sabe irônica, mas não passa de troça. O nome do grupo, de resto, também tem esse espírito de brincadeira e de ruptura com as convenções.

A irreverência de "Terceiro" não se aproxima do nível de cinismo de alguns filmes recentes de Woody Allen, por exemplo, isso para criar um ponto de comparação com um ícone, uma figura badalada que muitas vezes deu-nos mostras do seu humor e da sua inteligência. 

Estou a pensar em "Match point", de 2005, que me fez sair da sala de cinema atônita e desconfortável com a mudança de registro. O site do IMDB destaca a fala de uma das personagens do filme: 


- The man who said 'I'd rather be lucky than good' saw deeply into life" .


O argumento dela faz supor que é ruim ser boa pessoa. Mais vale ter sorte e, nessa levada, para estar com os amigos, mais vale ir ao cassino, ao bingo etc. Pelo menos não se rompe o padrão, é sortudo com sortudo, sem hipótese para as pessoas que aceitam a bondade sem aquele erguer de ombros, sem desdém.

Enfim, falei no Ultraje, fiz uma digressão até Woody Allen e quero dizer o quê?

Quero dizer que não imaginava o Roger, vocalista do grupo Ultraje a Rigor, a criar confusão a partir de um mal entendido com gente que fala outro idioma e que foi ao Brasil para participar num evento cultural. É assim mesmo, começa-se uma briga - que poderia ter tomado outras proporções -, ficam na memória as fotografias da tonteria (que eu não faço questão de publicar), as palavras confusas, o mal estar? Isso dá cá uns sinais de respeito pelo público incríveis! 

E como se não bastasse a trapalhada, a falta de jeito, um jornalista do UOL apresenta o incidente como um momento alto... ops!  

Não gosto muito da minha versão moralista, que já me rendeu inimizades. Não acredito nisto de julgar com dureza e de criar um campo, como se fosse um campo magnético, para me proteger da influência perniciosa de todas as pessoas más! Lado negro cada um tem o seu, inclusive eu. Não quero sublinhar esse lado do Roger.

Fato é que lado bom cada um tem o seu, também. Até que se prove o contrário. 


Mais valia saber que o Roger tocou descontraidamente e depois foi andar na chuva, ao invés de assistir à apresentação do artista que o sucedia no palco. Ele podia ou não podia simplesmente abdicar do espetáculo de quem o chateou? Era bem mais simples. E se alguém achava graça nisso, era ele. Continuávamos a lembrar dele como um cara gozador e pronto.

Reagir provocando, inflamar-se à toa, misturar o atropelo casual com desrespeito pelos artistas brasileiros e tal é investimento mal feito. Bobagem de quem perdeu a compostura. Tem direito, ok, mas que seja em casa dele... 

domingo, 13 de novembro de 2011

"Nude series VIII", Georgia O'Keeffe



Não sei explicar por que gosto da pintora norte-americana, mas gosto!

Medicina, comportamento e cinema têm espaço no espaço público


"Conversas à noite sobre Cinema e Saúde | Auditório da Biblioteca Almeida Garrett
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Enquadramento 

“Num guião cinematográfico, os personagens e os cenários desenvolvem-se numa cadência sistematizada de eventos. Sobre um documento narrativo, ou argumento, sucedem-se os acontecimentos, cenas, diálogos e é com estes símbolos e sinais do cinema que o espectador, com a sua visão, interpreta, descodifica e organiza, no seu quadro vivencial, o que percepciona num filme. Também a Saúde, na sua dimensão individual, colectiva e cultural, ao reflectir os efeitos biológicos e psicoafectivos das Civilizações, está omnipresente nos roteiros cinematográficos. É justamente sobre essa simbologia e linguagem da Saúde, muitas vezes hermética e iniciática, que somos desafiados a expressar as nossas sensibilidades e perspectivas. 
Assim se cruzam os universos virtuais do cinema com a esfera cognitiva da saúde e da doença, permitindo-nos reflectir libertariamente, expressando visões e confrontando argumentos, sobre os mitos, ídolos e símbolos que promovemos, e sobre os cultos, vícios e modas com que desenhamos as nossas paisagens afectivas. 
Nestas tertúlias, de cumplicidades nocturnas e de arrojadas confabulações quase clandestinas, exploram-se estas ligações de complementaridade inesperada: é um processo que nos permite a todos, aprender a visionar e a argumentar, com ecletismo, abrangência e humanidade”. 
(Guilherme Macedo, Comissário e Moderador do ciclo) 

Conceito 

A iniciativa será composta por um conjunto de conversas, tendo como pano de fundo uma selecção de filmes de qualidade. As personalidades convidadas, com diferentes sensibilidades, são desafiadas a partilharem, com o público, as suas visões e argumentos sobre a temática de cada filme. 
Assim, procurar-se-á abordar um conjunto de aspectos comportamentais e as suas implicações ao nível da saúde. Longe de procurar promover qualquer discurso moralista, pretende-se sim, contribuir para uma informação esclarecida a partir da fruição de curtos excertos de um bem cultural de grande divulgação. 

Modelo 

O ciclo será composto por 3 sessões a realizar às segundas-feiras, durante o mês de Novembro de 2011, na cidade de Porto, no auditório da Biblioteca Almeida Garrett. 
As sessões, a realizar à noite a partir das 21h30, terão uma duração aproximada de 2 horas. Será uma conversa entrecortada pela projecção de excertos dos filmes seleccionados. O painel de personalidades participantes será constituído pelo autor da ideia e moderador do debate, Professor Doutor Guilherme Macedo, e por dois convidados. 
Cada sessão abordará temas específicos, sugeridos pelas películas, a desenvolver pelos participantes, mas procurar-se-á criar um fio condutor para o ciclo. 

Programa do ciclo 

Local – Biblioteca Almeida Garrett, Porto 

14 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Manuela Melo, Roma Torres e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: De Olhos Bem Fechados (1999) (Eyes Wide Shut) 

21 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Álvaro Costa, Carlos Tê e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: Easy Rider (1969) 

28 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Carlos Magno, Fernando Gomes e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: Maradona by Kusturica (2008) 

A iniciativa é da responsabilidade do Serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A produção do ciclo é realizada pela Ideias Maiores. 

Manuela Melo 
Licenciada em Biologia e Jornalista. 

Roma Torres 
Médico, Director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de São João e Crítico de Cinema. 

Álvaro Costa 
Profissional de comunicação desde 1985, é actualmente comentador/apresentador da RTP Informação, e produtor de rádio na Antena 1 e Antena 3 da RDP. 

Carlos Tê 
Licenciado em Filosofia, letrista de Rui Veloso, Clã e Jafuméga, colaborações com Jorge Palma, e também cantor. Escreveu um romance, três contos e três peças de teatro musicais. 

Carlos Magno 
Jornalista, Analista Politico e Professor do Ensino Superior. 

Fernando Gomes 
Licenciado em Economia, foi campeão de basquetebol no FC Porto e presidente da Liga de Clubes de Basquetebol. Foi vice-presidente do FC Porto e administrador da sua SAD, assume actualmente a presidência da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. 

Guilherme Macedo 
Médico, Director de Serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João e Professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto."



É ou não é muito bom que alguém se lembre de criar e de promover um evento como esse?

Fiquei com vontade de ir, mas infelizmente nunca vi esses 3 filmes. Eu ouviria ao mesmo tempo opiniões e informações, conhecimento de segunda mão, como se costuma dizer.

Até a data de cada uma das conversas, no entanto, ainda tenho oportunidade de conhecer os filmes e, estando presente nas discussões, apanhar depressa o que disserem... ok.

Caso decida ir, faço questão de comentar no blog.


PS - um documentário sobre o Maradona? Deve ser daquelas situações que calham a nós por sermos muitas vezes do contra... Não admiro o jogador argentino! Mas gosto do que já vi de Kusturica. Assisti a dois filmes dele: "Promessas", de 2007, e "Tempo dos ciganos", de 1988. Difíceis de resumir e de comparar a outras produções. 


sábado, 12 de novembro de 2011

Uma nota a mais sobre traduções ou a cultura nos bastidores


"Giovanni Pontiero nasceu em Glasgow, Escócia, em 10 de fevereiro de 1932 e faleceu no dia do seu 64o aniversário em Manchester, Inglaterra. Estudou na Universidade de Glasgow, onde concluiu a licenciatura e apresentou tese de doutoramento em 1962 sobre a poesia de Manuel Bandeira. Durante quase toda a sua vida lecionou literatura latino-americana na University of Manchester Institute of Science and Technology - UMIST. Desenvolveu intensa atividade como pesquisador, principalmente no campo dos estudos literários portugueses e brasileiros, sendo autor de numerosos artigos, ensaios, conferências, entradas em enciclopédias e traduções. O livro The Translator’s Dialogue, publicado pela Benjamins Translation Library em 1997, é uma homenagem póstuma a Pontiero e contém uma coletânea dos seus ensaios sobre o processo da tradução literária e o seu impacto na percepção da cultura, o trabalho e os deveres do tradutor, a lacuna existente entre a teoria e a prática, simultaneamente identificando problemas e sugerindo estratégias para melhor resolver os obstáculos que ocorrem no ato tradutório. Por mais de três décadas, introduziu, em países de língua inglesa, obras de autores brasileiros e portugueses, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Clarice Lispector e José Saramago. Obteve o Prêmio de Tradução Camões (1968), Prêmio Rio Branco (1970), Foreign Fiction Award do jornal The Independent (1993), Outstanding Translation Award da American Literary Translator´s Association (1994), e Prêmio Teixeira Gomes do governo português (1995)."


Quem é Giovanni Pontiero, a figura de quem o excerto acima nos fala?

Dois ou três posts atrás, destaquei um texto jornalístico brasileiro que apresenta o projeto de tradução de Benjamin Moser, autor da mais recente biografia de Clarice Lispector.

Fiquei com o argumento arrolado pela revista na cabeça, pois segundo o jornalista que assina a curta matéria, Moser estaria interessado em publicar traduções de Clarice Lispector para dar uma segunda chance à autora em língua inglesa. 

E então? Os livros de Clarice foram mal traduzidos? 

Bom, sem autoridade para responder "sim" ou "não", pois não traduzo, adianto que ela teve boa parte da obra traduzida por um profissional de gabarito, o Sr. Giovanni Pontiero, já falecido. Há também outros nomes, como o de Elizabeth Lowe McCoy e o de Gregory Rabassa. A tradução feita por Rabassa, por exemplo, teve boa recepção.

Também ela, Clarice, foi tradutora, para quem não sabe.

Se, na visão de Moser, apenas profissionais pouco sintonizados com a literatura tiveram seu trabalho associado ao de Clarice, no caso das traduções para o inglês, como é que ele foi capaz de montar uma equipe? Serão todos especialistas em literatura brasileira? Em literatura latinoamericana, ao menos?

Lembrei-me de repente que a Profª Doutora Ana Luísa Amaral, de quem falei rapidamente noutro post, formou equipa para fazer frente ao desafio das Novas cartas portuguesas. Note-se que ela e pelo menos uma das co-autoras do livro dão-se muito bem, a equipa está ao abrigo de um instituto, que por sua vez funciona à luz da experiência de uma faculdade de Letras. E deve haver a mediação, o acompanhamento de alguma fundação, como a Calouste Gulbenkian... A própria Profª Ana Luísa dá aulas acerca das Novas cartas e conhece o contexto em que foram escritas e recebidas.

É exigência a mais querer uma imprensa que explique aos leitores como são os bastidores de um projeto, uma vez que elementos da nossa cultura estão nele envolvidos? Ou por acaso algum jornalista sério está à espera de que o leitor corra atrás das informações de gabinete que ele ou não pesquisou ou não organizou textualmente? Não me parece que assim seja. Cada qual na sua função, pelo menos até que as funções se misturem porque temos cabeças para isso...






PS - em Portugal, há um canal de televisão que exibe aos domingos um programa cujo nome é "Câmara Clara". Tem qualquer coisa no estilo das entrevistas com que não consigo simpatizar. De qualquer modo, há trabalho antes de o programa ir ao ar, há um esforço para fazer chegar até as pessoas que vêem TV aberta um pouco do que se passa no âmbito da cultura nacional. Acho que é o mínimo, não é luxo.

Pandora por Waterhouse



John William Waterhouse, pintor nascido em 1849, na Inglaterra, esforçou-se para ser escultor; no entanto algo fugiu ao controle e ele se transformou num pintor. Especializou-se em figuras femininas relacionadas à Mitologia. Muito cuidadoso com os detalhes, recebeu críticas negativas por criar cenas demasiado artificiais.

O quadro acima foi sugestão de uma amiga que entende mais de pintura do que eu. Ela própria desenha e pinta, sob o olhar atento de uma professora oriental. Se não me engano, o interesse por estudar Chinês veio precisamente daí, quer dizer, o interesse pelo idioma significava uma hipótese de encontro mais íntimo com uma parte preciosa da cultura oriental.

Lívia sugeriu outro quadro, em que Pandora, de cabelos negros e roupa mais escura, abria uma caixa grande, apoiada num pedestal improvisado. Estava ajoelhada, com ar que me agrada menos do que o desta Pandora.

Gosto desta Pandora comedida, cabelo atado à nuca, curiosa com um objeto que pode reter entre as duas mãos. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Esses ex-alunos da Fundação me matam!

Conversando com um ex-aluno alegre e ativo, coisa de minutos atrás mesmo, senti uma fagulha:
- Ah, vou nessa! Vou mostrar no blog textos diferentes na origem... feitos por causa do estado de graça da melhor noite da minha vida.

Paulo Leminski dizia que para um poema são precisos anos de vida! As imagens que ele foi buscar são todas muito palpáveis. Querem ver?

um bom poema leva anos
   cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
   seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
   sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
   três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
   uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Pra mim fica mais claro, depois dessa sugestão do poeta, que os meus pequenos poemas de comoção pelo nascimento do meu filho já aprendiam a andar antes de o Átila chegar a esse mundo.

Sendo muito franca, sou adepta dessa concepção de evolução. Eu própria tinha um sonho com o meu filho, desde a minha adolescência. No sonho ele era o Átila (o rei huno, não, mas o meeeeu Átila), embora o sobrenome/apelido fosse outro - que não é o meu nem o do pai dele.
Estávamos a brincar num parque de diversões dentro de uma praça circular, grande.
Eu já era uma mulher tensa (não!) e ele tanto me compreendia, que fazia as vezes de amigo, desde pequeno; dizia para eu me acalmar, porque ele gostava de todas as pessoas da família, inclusive daquelas de quem eu, como mãe perturbada, sentia ciúmes...

Fujo de comentar mais o sonho recorrente, porque já calhou a mim, mais de uma vez, essa onda de pensar que antevejo e vislumbro! Não refuto a mão que ele estendia para mim em sonho, claro que não, mas fazer figura de má diante dele, num futuro próximo, é pior do que pesadelo, seria realidade a mais para mim.
Eu sonhava com meu filho, entenda-se isso como for possível.

E na sequência do nascimento dele numa maternidade pública da cidade do Porto, cheguei a casa em Amarante e fiz uns poemas. Estava profundamente agradecida por ter estado com outra mãe, num quarto de hospital simples, sem a barreira de uma sala só para bebês. Em Portugal, filhos ficam ao lado da cama das mães, num bercinho em acrílico. O meu, como o de muitas outras, presumo eu, passou toda a noite deitado em cima de mim, barriga contra barriga. Foi assim que eu vi as horas caminharem.

É de um fruto dessas horas - e otras cositas más - que este post trata.

Já uma vez publiquei poemas numa revista chamada Crioula; depois mandei mais uns para o blog de uns amigos, o Jean Narciso Bispo Moura e o Luciano Melo. Lanço aqui e agora as aspirações a hai-kai que mais me tocam, nessa aventura de ser mãe:






Atravessamos a noite
pela janela.
Quarto de hospital.

 
Mãe e filho numa maratona:
reta final do milagre
de (re)nascer.

 
Naquele que foi nosso ninho,
só uma moldura continha um vidro.
A ternura transbordava.

Projeção do instinto maternal,
pele com pele,
placidez.

Projeto-resposta
à pergunta-essência:
“Estás em mim?”.